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Garotas de Luxo


GAROTAS DE LUXO:
PRODUTO MADE IN FAMÍLIA 
 
Arlete Gavranic
Psicóloga e Terapeuta Sexual

     Dei uma entrevista para um jornal do Espírito Santo, falando sobre o nível sócio cultural elevado da maioria de garotas da prostituição de luxo e os fatores que estimulam essa busca e dificultam a saída, achei esse tema importante de ser colocado para vocês.

     A prostituição é uma realidade presente no mundo todo, mas uma característica que vem chamando a atenção de pesquisadores sociais é uma mudança no perfil das garotas que vem fazendo programas em casas de prostituição de luxo nas grandes capitais do Brasil, em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Vitória, Curitiba, Florianópolis, entre outras, essa realidade esta chamando a atenção. O perfil das garotas que íam para a prostituição era de garotas de classes sociais economicamente menos favorecidas, às vezes garotas de uma classe média baixa, mas essas não eram a maioria. Mas as casas de “encontros” mudaram muito nos últimos anos, passaram a ser lugares bonitos, luxuosos, e o perfil das meninas que trabalham também mudou, hoje encontramos garotas bonitas, bem cuidadas, universitárias na sua grande maioria, e a mudança que mais tem chamado atenção é que elas são, na sua maioria, filhas de famílias de classe média a média alta! Isso mesmo, filhas de executivos, de profissionais liberais, de pequenos empresários, de um perfil de família muito diferenciado tanto culturalmente como na estabilidade financeira.

     Mas o questionamento se dirige ao porquê essas garotas acabam buscando a prostituição?

     Essa é  uma reflexão muito interessante, pois nos remete a forma como estamos vivendo, os valores que alimentamos e as famílias. É certo que a humanidade se modernizou muito nos últimos 50 anos e que isso veio acompanhado de um novo hábito que para muitos já foi incorporado como necessidade, o de consumir. Alem disso, estamos no século do fast, tudo tem que ser para agora, não dá para esperar. Nós temos vivido esses padrões de consumo, desejo de status e observamos nas famílias de classe média para mais um desejo de proporcionar aos filhos todos os desejos como se isso evitasse sofrimento e frustrações e fizesse os pais serem mais queridos ou os filhos mais felizes. Erros existenciais, basta andar nos shoppings ou entrar em lojas de brinquedos e de eletrônicos e veremos pais alimentando pequenos tiranos em seu desejo de poder e sem nenhuma noção de valor ou de merecimento, tudo na vida tem uma relação custo-benefício, mas os pais dão presentes do carrinho ao computador ou ao jogo mais moderno, da canetinha a bolsa ou bota de griffe, sem data ou sem merecimento, e com isso ensinam a relação entre querer e ter sem o espaço da conquista, do esforço, do merecimento. E aí como podemos esperar que filhos (as) sigam suas vidas pessoais e profissionais com determinação e empenho em estudar, trabalhar, em crescer por mérito próprio? Isso leva tempo e implica em investimento, estudo, trabalho, suor, tem que esperar. semear, regar, para depois colher!

     Esses valores familiares têm facilitado um enorme número de jovens que anseiam em conquistar sem esperar muito, e algumas grandes portas abertas no mundo das contravenções tornam-se sedutoras a esses jovens, aqui vou me deter a pensar na prostituição de luxo.

     O perfil dessas garotas tende a ser de meninas de 18 a 25/ 27 anos, bonitas, magras, universitárias na grande maioria, talvez a metade delas seja de cidades próximas ou mais distantes e para estudar vieram morar sozinhas, outras moram com a família, mas todas costumam dizer que tem horário prolongado, pois fazem trabalhos (em geral se intitulam modelos) em festas, eventos e isso têm horários estendidos ou até justificam inúmeras viagens que possam aparecer.

     Essas garotas muitas vezes são apresentadas a prostituição por alguma amiga ou vão em busca sozinhas ao perceberem o quão difícil – e demorado pode ser a conquista de um conforto econômico. Enquanto uma estudante universitária consegue um estágio remunerado em torno de um a 1,5 salários mínimos, e precisa trabalhar diariamente de 6 a 8 horas, para pensar em adquirir experiência e talvez num planejamento pós-universidade (fazendo cursos de pós-graduação, ou mba ou especialização) em um prazo de cinco a sete anos ela estará conquistando um salário (se ela tiver talento, capacidade e boa colocação) que a auxilie a efetuar alguns de seus sonhos pessoais. É um planejamento de vida em médio prazo, mas a ansiedade e o padrão de comportamento até então vivido é o da conquista rápida, é o de ser avaliado por aquilo que tem, que veste, pelo lugar que freqüenta, pelo poder da compra, e muitas vezes é no desejo de não perder esse padrão de vida ou também de melhora-lo que muitas dessas garotas vislumbram um caminho rápido na prostituição de luxo.

     Algumas pessoas questionam se não há uma crise de valores, um valor pessoal de não se sujeitar a ser usada, submetida ao outro, e aí temos que entender que os valores pessoais que muitas vezes tem sido reforçado nas famílias desde a infância estão ligados ao poder de ter coisas, status (e isso já se percebe em crianças e suas famílias ainda na pré-escola), é cada vez mais difícil ver famílias voltadas aos valores da moral e de valorizarem ‘a pessoa que se é’ e não só ‘o que se tem’.

     Outro aspecto importante de ser entendido é que muitas vezes essas meninas que conseguem ficar na prostituição de luxo conseguem um rendimento médio que varia de 10 a 20 vezes o que ganhariam em seu estágio, e muitas delas relatam terem uma sensação de importância, pois se sentem bonitas, podem se cuidar conquistam o que desejam (materialmente falando), e aí vem a pergunta: essas famílias não percebem? Não questionam ou não recriminam? (isso seria outro artigo... aliás, uma tese!). 

       Elas freqüentam essas casas de que em geral tem um ambiente bonito e luxuoso, e são desejadas por homens muito diferenciados, executivos, profissionais liberais, empresários, alguns jovens, a maioria de homens maduros (de 35 a 55 anos), e que tem clientes interessantes, inteligentes, bonitos ou charmosos, mas com uma apresentação classe A, elas traduzem que muitos são homens que elas desejariam e que é excitante ver que eles pagam para ficar com elas. Essa garota sente-se poderosa na sua sensualidade e no seu poder de conquista, e isso acaba ‘viciando’.

     Mas o discurso dessas garotas não é muito diferente da maioria das mulheres que se prostituem em todos os lugares, elas dizem que é passageiro, que vão juntar um valor para terem seu próprio negócio, e ainda que vão parar para viverem um grande amor, casar e ter seus filhos.

     Sabemos que muitas terão um final não tão feliz, a depressão é  companheira de muitas quando perdem esse espaço pelo avançar da idade, o poder de consumir torna-se um vício para muitas e o desejo de ter um negocio se distancia, crises existenciais fazem com que muitas se viciem em busca de um prazer ou de uma excitação, pois o sexo tende a se tornar banal, a carreira provavelmente dificilmente será recuperada e se for irá gerar enfrentamentos dos quais se fugiu anteriormente. Mas o mito do amor romântico, que um ‘príncipe’ a resgate para ser feliz continuará sendo a esperança da maioria delas.

INSTITUTO ISEXP: Instituto Brasileiro Interdisciplinar de Sexologia e Medicina Psicossomática

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