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Masturbação: bem ou mal? Vício ou hábito? Relaxamento ou tensão?


Masturbação: bem ou mal? Vício ou hábito? Relaxamento ou  tensão?

 

Fiquei refletindo sobre a masturbação devido a um paciente de 16 anos que me contava de sua excessiva tensão, que se apresenta acompanhada de dificuldades para adormecer, sono entrecortado, repleto de sonhos associados aos seus problemas diurnos. Como tensão e tesão são palavras muito próximas, e como a tensão é o oposto do relaxamento, estado que freqüentemente ocorre após a satisfação sexual, a conversa derivou para esse lado. Dizia-me ele que imediatamente após sua única relação sexual ‘completa’, ou seja, na qual houve penetração, sentiu-se ‘leve’, aliviado de sua tensão, e que, quando se masturba – ele o faz freqüentemente – não tem a mesma sensação de alívio. O garoto descrevia sentir-se melhor, um pouco aliviado, mas que se percebia ainda muito tenso após a masturbação. Não se pode associar a diferença de reações  entre o seu ato ‘completo’ e a satisfação solitária à existência de um conteúdo afetivo, pois sua iniciação sexual ocorreu com uma prostituta. Bem, se não é isso, se sua relação sexual não estava associada a uma paixão, a um amor, ou a uma fantasia amorosa, qual é o complicador? Teoricamente a descarga orgástica deveria oferecer-lhe um nível de satisfação muito próximo quando praticasse a masturbação. Ocorre que esse jovem tem de si uma auto-imagem muito depreciativa; é muito inteligente e tem consciência disso, mas apresenta dificuldades de relacionamento social, justamente por ser muito questionador, reprime seus sentimentos agressivos, por considerar que não tem o direito de magoar as pessoas e por estar acima do peso imagina que ninguém do sexo oposto vá interessar-se por ele. Sua auto estima, portanto, está em baixa. Ora, vamos considerar estes aspectos, aqui apresentados esquematicamente: se sua auto estima está rebaixada, isso significa que ele não se percebe como alguém que tem direito de usufruir de umas tantas coisas que lhe dariam satisfação, como dizer uns tantos desaforos, como é próprio dos adolescentes, a uma irmã que o provoca, ou a sair para a balada com um grupo de jovens de sua idade, ou a ter sexo não-pago. Não nos esqueçamos que foi-se o tempo que os meninos eram, necessariamente, levados à ‘zona’ pelo pai ou por um tio – agora a coisa está mais liberada... mas não para ele. Por que? Porque não se sente capacitado  a conquistar uma jovem e desfrutar com ela de uma relação amorosa que resulte em intimidades sexuais. Mas quando se paga, quando se procura uma prostituta, adquire-se um bem do qual podemos desfrutar plenamente – estas são as regras do mercado da sociedade capitalista. Podemos pensar, portanto, que neste caso, ocorre uma relação de compra e venda que valida a satisfação e que autoriza o prazer. A masturbação, por prescindir deste elemento, é apenas parcialmente satisfatória, pois se fosse o contrário, não sustentaria a premissa básica de seu funcionamento psíquico: que ele não merece coisas boas. Mais uma vez podemos ver como sexo e psiquismo estão intimamente ligados... se não há equilíbrio interno, não há também satisfação sexual plena.

 

Yara Monachesi - Psicóloga,Psicoterapeuta na abordagem fenomenológica, Doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP, Pós Graduada no curso de Pós Graduação Lato Sensu em Terapia Sexual da SBRASH/ ISEXP / FM ABC, co-autora do livro " Psicodiagnóstico: Processo Interventivo" - Editora Cortez 1995. Docente e coordenadora de cursos de pós-graduação do Instituto ISEXP.

INSTITUTO ISEXP: Instituto Brasileiro Interdisciplinar de Sexologia e Medicina Psicossomática

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